Responsável, solícito, criativo, perseverante…e fracassado. Por quê?

Dar autonomia, responsabilidade e significado ao trabalho faz com que os funcionários fiquem mais satisfeitos e desempenhem melhor suas tarefas. Verdade? Até certo ponto, dizem Jason R. Pierce e Herman Aguinis, da Indiana University, em estudo publicado na edição de fevereiro do Journal of Management. Em excesso, o efeito é o contrário: as pessoas sentem-se exauridas pelo esforço e habilidades exigidas para conseguirem dar conta do recado sem o chefe no pescoço.

Pierce e Aguinis defendem que, nas organizações, variáveis que parecem levar a resultados positivos na realidade podem ter consequências negativas. A explicação é que não existe uma relação linear entre causa e efeito, e sim, curvilínea, na forma de um U invertido. Há um ponto de inflexão a partir do qual o que era bom passa a ser ruim. Impressiona a quantidade de exemplos que os pesquisadores conseguiram levantar, com base em diversos estudos, para comprovar o aforismo “tudo em excesso faz mal”. Eis alguns deles:

- Nem sempre pessoas responsáveis, organizadas, perseverantes e orientadas a resultados irão produzir mais, e melhor. Levar-se a sério demais pode ser paralisante, também;
- Líderes assertivos podem pressionar demais seus subordinados e prejudicar sua produtividade;
- Empreendedores que planejam muito não conseguem ser tão bem-sucedidos, seja porque ficaram confiantes demais, seja porque ficaram inflexíveis ou pouco práticos;
- Empresas que crescem rapidamente vão à falência, porque arriscam perigosamente ou porque saem do controle.
- Uma empresa que diversifica suas atividades e operações geográficas pode reduzir riscos e aumentar a eficiência, até um certo nível em que essa estratégia fica contra-produtiva.


Vale a pena citar brevemente outros casos. Dizem os autores de “The Too-Much-of-a-Good-Thing Effect in Management” que se identificar com a empresa, ter a moral em alta, ajudar e orientar os outros e ser confiante pode diminuir o desempenho. Entre empreendedores, ser criativo e apaixonado pelo negócio leva ao fracasso, quando essas características são acentuadas. No campo da estratégia, também, tudo que é demais faz mal: integração de operações, investimento em pesquisa e desenvolvimento, oferta de mais e mais produtos diferenciados.

Os autores levantam algumas questões estatísticas que devem ser consideradas nas pesquisas para dar conta da complexidade dos fenômenos organizacionais. Por exemplo, se há uma terceira variável que influencia a relação entre as duas primeiras e se há um número de observações suficientes para estabelecer uma ligação entre elas.

O estudo faz pensar como estamos acostumados a fazer relações mecânicas entre determinadas ações e comportamentos organizacionais e os resultados esperados. Nada é tão direto assim. Talvez algumas ligações entre fatores possam ser representadas por um curvilíneo U invertido, como sugerem Pierce e Aguinis. Mas fico imaginando que, em muitos casos, quem sabe nem isso. De repente, não há conexão alguma e não adianta seguir nenhum manual do que fazer ou não fazer para atingir bons resultados. Mas quem é que consegue conviver eternamente com uma incógnita?

Leia o estudo completo em:
ResearchBlogging.org
Pierce, J., & Aguinis, H. (2011). The Too-Much-of-a-Good-Thing Effect in Management Journal of Management, 39 (2), 313-338 DOI: 10.1177/0149206311410060

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2 respostas a Responsável, solícito, criativo, perseverante…e fracassado. Por quê?

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